MARIA DAMIÃO (BIOGRAFIA)

 

Maria Vieira Marques foi uma das primeiras seguidoras de Mestre Irineu. Seu hinário é um dos baluartes da Doutrina do Santo Daime. Ficou conhecida como Maria Damião, pois assim se chamava seu esposo Damião Marques.

 

 

Ela nasceu em Belém do Pará, no dia 4 de novembro de 1910. No início da década de 30, transferiu-se, juntamente com sua família, para o Rio Branco, no Acre, onde conheceu o Mestre Irineu. Era o tempo em que ele e alguns seguidores iniciavam o assentamento na Vila Ivonete, assim como também davam prosseguimento aos primeiros trabalhos da doutrina do Santo Daime. As condições da colônia ainda eram precárias e Damião Marques ofereceu sua casa, no antigo bairro Alberto Torres, para a realização de um trabalho, convite esse prontamente aceito pelo Mestre.

Segundo depoimento de D. Percília Matos da Silva:

Era 23 de junho de 1935, o Mestre organizou duas frentes de trabalho. Os homens foram tirar lenha para fogueira, as mulheres, preparar a ornamentação e uma grande ceia que o Mestre pediu para fazer no intervalo. Quando foi lá pelas seis horas da tarde, na Casa de dona Maria Damião, nós nos reunimos, rezamos um terço, tomamos Daime e fomos cantar até meia noite. Só tinha oito hinos! Um de Germano Guilherme, quatro do Mestre, dois de João Pereira e um de Maria Damião. Eram repetidos nessa mesma ordem por toda a noite. Quando foi meia noite ele deu um intervalo, já estava preparada a ceia numa grande mesa, quando ele mandou que nós cantássemos por três vezes aquele hino:
 

Papai do Céu do Coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão Graças à mamãe
Mamãe do Céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Louvado Seja Deus

 

Esse hino foi cantado de forma tão bonita, que nunca mais me esqueci...” Até hoje chora emocionada D. Percília Matos. Após a meia- noite o grupo voltou a cantar a sequencia de hinos determinada até o amanhecer do dia. Era dia de São João Batista.  Esse momento pode ser considerado o primeiro trabalho de hinário da doutrina.   Maria Damião era de baixa estatura, loura, branca, jovem e, segundo alguns depoimentos, uma mulher bonita. Teve sete filhos antes de perder o marido por deficiência pulmonar e precisou trabalhar duro para sustentar a prole.

Segundo depoimento do Sr. Teófilo Maia:

 “Atribuiu-se a ela o estigma de mulher doente, mas que na realidade ela era perfeitamente sadia. Trabalhava duro na agricultura e carvoaria, e mandava seus produtos - pelo intermédio do Sr. Manoel Dantas - para o mercado velho no cais da ponte de ferro, que era quem tinha carroça, além do João Pereira"

O Sr. Dantas levava a produção de Maria Damião - mensalmente - e fazia a entrega das encomendas, que eram feitas aos Sábados. Era quando ela ia com dona Cecília para a feira, vender bolos, quitutes e outros produtos de macaxeira, onde se tornou conhecida pela sua humildade. Uma das coisas que prova a áurea divinal desta criatura era o fato de ela nunca ter sido enganada na sua féria, pois por não saber contar dinheiro, se humilhava para os fregueses perguntando se ainda precisava “dar mais troco” e confessava que não sabia contar dinheiro. Com isso o pessoal se apiedava dela e até devolvia o que muitas vezes ela já tinha dado a mais. Pela aparência de menina, era também o Sr. Dantas quem fazia a estiva para ela; ou seja, recebia o dinheiro das encomendas e trazia querosene, sal, rapadura, jabá etc., pois o arroz, feijão, farinha e leite ela tinha em casa no paiol.

 “Maria Francisca Marques Vieira é um exemplo de vida para amar o seu próximo, haja vista o que já constatei em boa parte de suas atitudes, essas sendo recontadas por aqueles que estiveram com seus filhos, e principalmente com a dona Cecília - que após a viuvez de Maria Damião, era a que a acompanhava para a feira e ajudava a vender seus produtos (Pés-de-moleque, goma, carvão, bolo de macaxeira, roscas de goma, carimã etc.).

 “Quanto aos trabalhos espirituais, dona Adália Gomes nos diz que Maria Damião deixou um tempo de ir ao Centro, pois sofria muito, e sentia muita tristeza, porque quando ela chegava dona Raimunda Marques, esposa do Mestre, se retirava com ciúmes. Isso deixava o Mestre muito abalado, principalmente quando esse fato aconteceu numa noite de Natal - dona Adália não se lembra de datas, pois disse não ser costume fixar datas naquela época, e sim fases da lua, ou festejos.

Outro fato é que quando ela recebia um hino, por não saber escrever, corria na casa da dona Percília Matos, de quem era grande amiga, para que esta copiasse o hino no seu caderno. Depois vinha cantá-lo para o Mestre.

Segundo depoimento do Sr. Jairo Carioca:

“…Maria Damião recebeu um dos mais belos hinários da Doutrina, hoje batizado como "Mensageiro", composto de 49 hinos. Seus hinos verbalizam em sua totalidade as palavras do Mestre Irineu. É desse hinário a origem da palavra pátria na Doutrina. Maria Damião, através de seus hinos, nos fala do amor à Pátria - terra onde nascemos, e em outras passagens projetou histórias que aconteceriam no futuro, como as divisões do grupo em 1974 e 1981. Em 1942, quando a marinha japonesa foi derrotada, os alemãs e italianos expulsos do norte da África, na Segunda Guerra Mundial, Maria Damião anunciava através de seus hinos: 'novas revoluções com os estrangeiros'. Seu hinário descreve também a figura de um Chefe Estrangeiro, ser espiritual misterioso, que poucos na Doutrina conhecem seu significado e origens. Retratando essa passagem, o Mestre recebeu o hino 'Choro Muito'. Ninguém sabia que ela estava doente. Com três dias que saiu esse hino, chegou a notícia que ela estava agonizando.

Maria Damião faleceu no dia 2 de abril de 1942, com a idade de 32 anos, apos um mal súbito (acredita-se que tenha sido um derrame. Após sua passagem, o hinário “O Mensageiro” passou a ser zelado, à seu pedido, por D. Percília. Seus filhos e o sobrinho mudaram-se para o Alto Santo, onde ficaram sob os cuidados de Mestre.

“(...) e ela já correu da caieira com uma forte dor de cabeça, assistida por sua companheira dona Cecília, que dizia “Maria, isso vai passar, eu já preparo um chá...”. Mas ela pediu que chamasse o Mestre Irineu, que veio já do Alto Santo e lhe ministrou o Santo Daime. Então ela pediu, “Mestre, tome conta dos meus filhos”. Ele lhe respondeu apenas: “Maria”. Enquanto isso, dona Cecília a consolava, dizendo, “Isso vai passar logo...”. E ela lhe respondeu, “só Deus, só Deus...”. Foram suas últimas palavras.

Maria Damião fala de sua passagem para a vida espiritual em seu último hino: Despedida

 

A tua casinha está pronta 

Caminhos abertos

Jardim de flores

A ti te oferecem
 

Jesus Cristo salvador

E a rainha da floresta

Se vós ver que eu mereço

Receba ó mãe honesta


Nas minhas ouças escutei

Um grande festejo

Os meus irmãos chegando

E o meu corpo se liquidando
 

Corrigi meu pensamento

Pedi perdão a meu pai

Para eu poder seguir

A minha feliz viagem
 

O mestre que me ensina

Vós é a minha guia

Vós me entregue ao divino

E a sempre virgem Maria.

 

Fonte: http://www.santodaime.org/site/religiao-da-floresta/companheiros/maria-damiao